domingo, 25 de janeiro de 2015

As práticas da regulação e avaliação dos Sistemas Educativos.





 Introdução
As medidas políticas e administrativas que se aplicam na regulação dos sistemas educativos visam sobretudo a mudança e a inovação educacional, de forma a conferir mais qualidade e eficácia ao ensino aprendizagem, apesar de estar implícito, um jogo de interesses de natureza político partidária, difícil de controlar e de contornar. Todavia, apesar da sua complexidade técnica, científica e humana que envolve a regulação e a avaliação dos sistemas educativos, há a registar uma significativa transformação e evolução ao longo dos tempos nos sistemas educativos portugueses e europeus.
 Embora, o sistema educativo português esteja ainda longe de atingir o desejável comparativamente ao europeu, temos de ser realistas e admitir que muito já se fez e naturalmente, muito ainda há para fazer. Acredito que cada um de nós pode e deve contribuir para a contínua evolução da mudança, através da nossa ação diária na área da educação, seja como pais e ou educadores, ou como professores. Segundo Barroso (2001, como citado em Almeida, 2005), a regulação do Sistema Educativo deve ser entendida como "um processo compósito que resulta mais da regulação das regulações, do que do controlo direto da aplicação de uma regra sobre a ação dos regulados” (p.5), daí que presentemente, a flexibilidade do currículo permita contornar a ação educativa ao nível micro de sala de aula.

Uma visão sobre a regulação e as linhas mestras da avaliação dos sistemas educativos.


Na opinião de Barroso (2005), o conceito de regulação num âmbito geral é entendido “ (…) como uma função essencial para a manutenção do equilíbrio de qualquer sistema (físico ou social) e está associada aos processos de retroação (positiva ou negativa) ” (p.728). Contudo, Ramos (2011), especifica o significado da regulação dos sistemas educativos como “ (…) um instrumento para ajudar a manter ou a transformar o sistema” (p.170). Presentemente assiste-se a uma “descentralização funcional e territorial” (Ramos,2001:29) da regulação educativa, conferindo à escola mais autonomia e poder de decisão porque “ (…) se inscreveu numa estratégia política, com o objetivo de inverter o sentido centralizador da gestão do sistema” (Ramos, 2001:34). Desta forma, entendo que a cultura de escola implica (re) construir uma escola com autonomia pedagógica, curricular e profissional não obstante ter de dar cumprimento às regras e normas instituídas mas, com a flexibilidade necessária para que a regulação se apresente e constitua um mecanismo que propicia a mudança e inovação através de uma atuação coerente, dinâmica, equilibrada e responsável dos seus atores.
 Contudo, Afonso (2003:57), citado em Almeida, 2005), afirma que “ (…) as logicas dos atores confrontam-se com sinais contraditórios” (p.20), na medida em que apesar de haver uma liberdade de adaptação do currículo ao contexto educacional, a verdade é que os professores e alunos deparam-se presentemente com o retorno dos exames a nível nacional nos fins de ciclo. A confusão e a insatisfação por parte de educadores, educandos Pais e E. Educação é uma realidade latente e, de certa forma, compreensível porque analisada à “luz da transparência”, verifica-se que existindo a possibilidade de adaptar o currículo à especificidade de um determinado contexto educacional, como é possível que alunos com dificuldades de aprendizagem possam realizar um exame de nível nacional? Mais, por acaso o exame irá ditar os conhecimentos adquiridos ao longo do ano letivo ou aferir o nível de conhecimentos naquele espaço de tempo que dura o exame? Não estávamos a caminhar para a sua inexistência? Por acaso não estamos a regredir neste aspeto?!
 Recordo-me do tempo em que era obrigatório fazer exame na então denominada 4.ªclasse e depois exame no 6.ºano (no meu tempo dizia-se 2.ºano do 1.º.ºciclo). No 9.º ano (antigo 3.ºano do 2.ºciclo) se tivéssemos média de 14 ficávamos dispensados de exame e o último exame a fazer era no 11.º ano para terminar o secundário. Bem, sobrevivi e, curiosamente, os exames perseguiram-me pois, na Licenciatura em Educação também tive de os realizar e aí considero-os imprescindíveis. Não tenho nenhum trauma em relação aos exames e considero que em certas situações, como a que me referi no parágrafo anterior, são indispensáveis, contudo, não creio que seja necessário a sua realização em certos níveis de ensino, muito menos, se deva atribuir uma importância exagerada aos mesmos, sobretudo e principalmente, em idades muito jovens. Infelizmente, já assisti a situações de angústia absolutamente absurdas no dia que antecede a realização do exame e no próprio dia.
Certamente que este retomar dos dispositivos de controlo de aprendizagem não irão contribuir para a motivação do ensino aprendizagem e consequentemente irão contribuir para criar um afastamento e uma imagem negativa da escola, principalmente para os alunos que à partida estão menos motivados para a aprendizagem. Creio que estava-se a trabalhar, até então, para conferir à escola uma imagem de espaço aprazível de aquisição de conhecimento e de comunicação saudável entre a escola e a comunidade, no sentido de aproximar os alunos da escola e reduzir a taxa de insucesso, de absentismo e de assiduidade.
Porém, e no seguimento destas novas regras de avaliação, a taxa de sucesso e insucesso que cada estabelecimento de ensino apresenta, propicia a “rotulação” das escolas, ou seja, as escolas são avaliadas como boas, menos boas e péssimas de acordo com a taxa de sucesso e insucesso.
Naturalmente que perante este cenário, cria-se um círculo de atuações incontrolável, pois sendo a escola identificada, e ou conotada, como menos boa ou péssima, os pais e encarregados de educação naturalmente que irão preferir mudar os filhos de escola, assim como, o pessoal docente irá concorrer ou tentar concorrer para outros estabelecimentos de ensino com melhor reputação. Infelizmente, atualmente assistimos em certas localidades do nosso país a este tipo de cenários que conjugados com outros fatores sócio económicos conduz a situações muito lamentáveis de certos estabelecimentos de ensino.
Se por um lado vemos escolas conotadas como boas, por outro lado assistimos ao empobrecimento de outras. Certamente que esta não é uma boa política educativa de regulação dos sistemas educativos, pois se a intenção da aplicação dos exames por parte do Estado é de reter os jovens, então estamos a regredir na alfabetização da nossa população porque infelizmente o que assisto diariamente são os jovens em idade escolar, filhos de pais que não atribuem grande importância à escola e ou de pais que recebem o R.S.I. (Rendimento Social de Inserção) irem ou simularem que vão para a escola, apenas para que os pais continuem a receber a “mesada”, quero dizer, o R.S.I. O poder económico supera a valorização da necessidade de aprender em certas localidades e infelizmente o sistema educativo, ou melhor dizendo, as políticas educativas, permitem esta desvalorização da aprendizagem. A taxa de analfabetismo irá subir, independentemente dos resultados estatísticos que forem “ encomendados “ à medida. À verdade não se pode fugir e infelizmente quem está no terreno pode constatar estas realidades na área mais nobre da intervenção social, a educação.
Naturalmente que devemos, no meu entender, como cidadãos responsáveis alertar para estas situações que carecem de mudança para se poder intervir e ultrapassar com dignidade e eficácia, porém, existem como todos nós sabemos boas referências escolares em muitos pontos do país.
Uma forma de contribuir para a melhoria da qualidade educativa é através da avaliação das organizações escolares. Estas são avaliadas em duas modalidades, nomeadamente a avaliação interna, também conhecida como auto-avaliação e a avaliação externa. Na avaliação interna, é feito um levantamento dos pontos fracos e fortes da realidade educativa e como tal, torna-se não apenas uma referência de orientação para os professores como também um documento que deve ser trabalhado no sentido de lhe conferir atualidade e servir de guia formativo atendendo ao exercício de reflexão feito sobre a eficácia das aprendizagens e que traduz, de certa forma, a imagem que a escola passa de si para a comunidade, digamos que é o seu cartão de identidade. A avaliação externa estrutura-se com base na avaliação interna e em três domínios: os resultados, a prestação do serviço educativo e a liderança e gestão. A Lei n.º 31/2002, de 20 de dezembro, “ (…) estabelece que o controlo de qualidade se deve aplicar a todo o sistema educativo com vista à promoção da melhoria, da eficiência e da eficácia, da responsabilização e da prestação de contas, da participação e da exigência, e de uma informação qualificada de apoio à tomada de decisão”. A mesma lei refere que “ (…) os processos de avaliação devem ser orientados por princípios de continuidade e estabilidade e que estes requerem também uma atitude de permanente reflexão acerca da sua eficácia e dos modos de aperfeiçoamento”.
Através da qualidade e do rigor educativo, certamente que podemos construir uma escola mais equitativa e solidária, assim como uma sociedade mais inclusiva e justa.

Bibliografia

- Almeida, A. (2005). Os fluxos escolares dos alunos como analisador dos modos de regulação local do Sistema Educativo. In: Dissertação de Mestrado. Lisboa: FPCE, recuperado em 25/05/2012. Consultado em: 25-01-2015

-Barroso, J. (2005). Políticas Educativas e organização Escolar - Temas Universitários. Lisboa: Universidade Aberta.
Disponível em:
- RAMOS, C. (2001). "Regulação dos Sistemas Educativos - O Caso Português", in Os processos de autonomia e descentralização à luz das teorias de regulação social: o caso das políticas públicas de Educação em Portugal (Tese de Doutoramento). Monte de Caparica: FCT/UNL. Disponível em http://hdl.handle.net/10362/1009.

disponível em:
- Lei n.º 31/2002 consultada em 25-01-2015.
disponível em:

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